A
adolescência
Toda
seqüência de ações engendradas na vida
do ser humano é de grande importância para a sua
evolução espiritual. Acredito que um reduzidíssimo
número de pessoas tem a verdadeira noção
da importância desse evento para as várias sucessões
até voltar ao seio do Pai. Cada ato praticado, cada palavra
emitida, cada pensamento vibrado no éter pelo ser humano,
gera um somatório de conseqüências inimagináveis,
positivas ou negativas que definirão a sua situação
na vida futura, determinando se a mesma gerou um carma de caráter
probatório, evolutivo ou missionário.
É na adolescência que começa o jovem a despertar,
a tomar consciência, a vivenciar, a descortinar o que há
de bom ou ruim nessa jornada.
A palavra adolescência, etimologicamente, vem do latim,
adolescere, e que quer dizer CRESCER. A adolescência não
é só crescimento físico; é também
uma fase de crescimento funcional, biológico, de crescimento
psicológico e de crescimento social. É uma fase
de crescimento em todas as direções, quer material,
quer social, quer espiritual. É uma etapa muito importante
na vida de todo jovem. Seus ideais, conceitos e atitudes para
cada aspecto da vida surgirão desta experiência de
crescimento. Serão firmadas, nessa época, suas atitudes
para com a visão do mundo.
Sendo a adolescência a fase da vida compreendida entre a
puberdade e a virilidade, ou seja, dos 15 aos 24 anos de idade
já se pode imaginar o que será esse período
na vida de um jovem na capital baiana nos anos cinqüenta,
onde o desemprego, a miséria, a malandragem, a vagabundagem,
a preguiça, a indolência, a falta de higiene considerada
natural e outros atributos nocivos proliferando gratuitamente,
num povo altamente miscigenado, resultante de uma mistura letal
de pessoas comuns, da pior espécie oriunda das raças
branca, indígena e negra? O que poderá ser transmitido
ou repassado para um adolescente convivendo nesse meio hostil,
que possa servir para a formação da sua personalidade
e para a conseqüente constituição do seu caráter?
Bem! Se a sua missão na atual existência for de um
formador de opinião, certamente servirá de subsídio,
escudo ou exemplo para se defender de tais práticas.
É importante frizar que, no campo das políticas
públicas os governos não tinham preocupação
com os jovens. Os governos costumavam vincular a juventude com
a infância e adolescência, sem compreender que este
segmento tem suas especificidades. A juventude nunca foi uma época
da vida, mas é sempre um estado de espírito.
Minha adolescência teve início na cidade de Salvador
e se consolidou nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Nessa fase de minha vida tive de contar com a longa experiência
adquirida na minha terra natal às duras penas nas ruas
da cidade. Foi para mim de grande valia, porque desembarquei no
Rio de Janeiro, precisamente no dia 25 de agosto de 1954, com
17 anos de idade, a cidade estava sitiada com a morte do estadista
Getúlio Vargas, de forma trágica pelo seu suicídio.
Fui morar num depósito da Empresa Transportadora Bahia-Rio
Ltda, situada na Rua Salvador de Sá 6 – no centro
do Rio de Janeiro onde toda sorte de malandragem imperava, pela
sua proximidade com a Central do Brasil, a Zona do Baixo Meretrício
da famosa Rua Pinto de Azevedo localizada no sopé do Morro
do São Carlos. Essa mistura de proximidades se traduzia
na nata do que se podia pensar em termos da alta vagabundagem,
cuja vida noturna tinha a sua matriz geradora na lendária
Lapa.
Todo material e dificuldade que um jovem precisava para forjar
e sedimentar o seu caráter eu tinha de sobra. Estava no
fio da navalha para escolher qual o melhor lado que eu deveria
optar na constituição da minha vida futura, sem
ter ninguém para me orientar tive que decidir em ser um
homem de bem. Toda oportunidade de optar pelo lado bom ou pelo
lado ruim da vida eu tive. Fiz grandes amizades com pessoas de
boa índole que me orientaram, subliminarmente, sempre para
o caminho do bem, mas também fiz amizades com pessoas que
trabalhavam na Empresa e viviam literalmente na marginalidade,
os quais foram de grande utilidade para minha formação
porque me orientaram, decisivamente, como deveria proceder, num
meio tão hostil sem me envolver na vida do crime. Acredito
que pela minha pouca idade e visível inexperiência
essas pessoas me viam como um filho que estava desamparado precisando
de orientação e apoio.
O aprendizado dessa época foi de grande valia para minha
vida futura.
A Agência da Empresa em São Paulo teve um grande
crescimento e precisou da minha presença na área
administrativa, que nessa época eu já demonstrava
grande habilidade e experiência nas questões relativas
às funções de despachante de mercadorias
para carregamento dos caminhões para as diversas praças
do norte e nordeste do país, experiência essa adquirida,
parte na cidade de Salvador, Bahia onde trabalhei dos 12 aos 17
anos.
O trabalho em empresa de transporte rodoviário de cargas
tem as suas particularidades inerentes às mesmas. Tem seus
períodos próprios – é sazonal. Tem
época que se trabalha o mês inteiro, com horário
para começar e sem horário para terminar. Enquanto
tiver mercadoria no depósito e caminhões para carregar
se trabalha noite e dia sem parar, obedecendo a um revezamento
do pessoal, tanto da administração como do carregamento.
Senti a diferença do clima. No Rio de Janeiro mesmo nos
meses mais frios a temperatura média, à noite era
de 20 graus e durante o dia sempre tínhamos bastante sol.
Em São Paulo, nessas circunstâncias à noite
a temperatura caia, na maioria das vezes, naquela época
a dois e três graus, em média, quando não
era negativa.
O São Paulo daquela época era uma cidade surpreendente,
com uma miscigenação de várias etnias tão
grande que confundia qualquer pessoa que ali chegasse e, sem sombra
de dúvidas, permanecia muito tempo confuso sem saber que
força maravilhosa era aquela que atraia tanta gente para
uma metrópole tão heterogênea. Era idêntica
a uma colônia de abelhas cujo meio ambiente fosse constituído
de uma florada diversificada e abundante. Não faltava emprego
nem trabalho para seus nativos nem para os “paus-de-arara”
que ali chegavam para construírem as suas vidas.
Completamente livre para fazer da minha vida o que quisesse era
o tipo de situação que mais um adolescente queria.
Não tinha a total consciência do perigo que corria
numa metrópole onde a maioria dos seus imigrantes e retirantes
nem sempre tinham motivos muito óbvios para estarem ali.
Na maioria das vezes os motivos eram, sem dúvida, a seca
que o impeliam na busca de melhor situação para
suas famílias, ora eram crimes cometidos na sua terra natal
que aqui encontravam um bom refúgio.
Adquiri grandes conhecimentos nas questões inerentes a
transportes de cargas. Tanto o trabalho burocrático da
administração como o adestramento necessário
na área de escritório central de uma grande empresa
pioneira no ramo do transporte, se tornou para mim de grande proveito
quando ingressei nas FFAA.
Em Salvador - Bahia, com 15 anos de idade adquiri uma grande habilidade
como despachante na entrega de mercadorias em todo o município
acompanhando os motoristas que transportavam cargas do Rio de
Janeiro e de São Paulo para aquela praça. Conhecia
a cidade como a palma da minha mão. Tanto o centro da cidade
como o recôncavo baiano não tinha mistério
para mim, eu conhecia por nome de bairros e de ruas o que facilitava
muito o serviço de entrega das mercadorias. Se um outro
despachante que não tinha a técnica nem a minha
pratica, num caminhão com 250 entregas, por exemplo, levasse
dois ou três dias para consolidá-las eu fazia em
um dia, o que era uma grande vantagem para o caminhoneiro. Com
isso ficava assoberbado de serviço porque todos queriam
que eu os acompanhasse nas descargas de mercadorias. Desde tenra
idade já era considerado o homem dos "sete instrumentos"
porque além dessa habilidade que antes citei, era também
exímio datilógrafo, tinha um talho de letra muito
bom, já trabalhava com máquinas de calcular manual
e elétrica que estavam sendo implantadas à época,
a situação do momento já forjava no meu caráter
de forma indelével os atributos necessários requeridos
para a liderança futura. Pontualidade, assiduidade e responsabilidade
passaram a fazer parte da minha vida, me levando, por isso, a
desfrutar uma grande liderança junto aos motoristas e outros
empregados e carregadores da empresa. Aliado a todo esse procedimento
e conhecimento precoce, pois tinha apenas 15 anos de idade à
época conhecia bem todos os sinais de transito e já
dirigia todos os tipos e marcas de caminhões, pois nas
horas vagas era eu quem fazia as manobras nos veículos
comuns e das carretas já carregados, no grande estacionamento
do depósito da empresa situado à Rua Dr João
Tobias, 95 na Mooca e na Rua Domingos Paiva, 111 – no Largo
da Concórdia rua esta situada paralela à ferrovia
Santos Jundiaí. Vale salientar que, talvez, pelos exemplos
nocivos que presenciei na cidade do Salvador praticados por pessoas
da família e por amigos mais chegados que morriam, prematuramente,
pelo uso imoderado de substâncias tóxicas, eu não
tinha o vício do tabagismo nem do álcool, apesar
da solidão e do intenso frio da capital paulistana.
Morava no próprio depósito, lavava a minha própria
roupa e fazia a refeição quando tinha tempo suficiente
para isso, pois a rotina diária era, sobretudo, intensa
e desgastante.
O depósito da Rua Domingos Paiva era imenso. A Empresa
o adquiriu para satisfazer a demanda nas épocas de grandes
volumes de mercadorias para as praças do Rio de Janeiro,
do Norte e do Nordeste. Tanto tínhamos mercadorias pesadas
que servissem para formar o lastro dos caminhões tais como
originária da Gessy Lever cuja fabrica no município
de Campinas nos mandava semanalmente 30 a 40 Caminhões
Ford F-8 com 9 a 10 toneladas cada um para as diversas praças
acima citadas. Recebíamos, também, mercadorias leves
e de grandes volumes de empresas tais como Chapéus da Prada
S/A, da Atma Paulista – Brinquedos de Plástico e
outras cujo valor do frete era altíssimo e compensava.
O depósito era tão grande que tinha no seu interior,
embora desativado, um desvio da linha de trem que antigamente
o mesmo entrava para descarregar suas mercadorias. Para mensurar
mais ou menos o seu tamanho houve em São Paulo uma sonegação
do produto arroz e foram depositados nesse depósito em
média 500.000 sacos do produto, em pilhas de 30 sacos de
altura. Ocupou, simplesmente, um espaço mínimo devido
o seu tamanho. Esse arroz foi quase totalmente perdido. Quando
percebi que o mesmo estava mofando e proliferando uns ratos gerados
pelo próprio produto, verifiquei que ninguém tinha
o produto, contatei com algumas fabricas da adjacência e
doei durante uns cinco meses ininterruptos para seus empregados.
Quando terminou a sonegação o restante foi retirado
do depósito e jogado no mar, acredito.
Essa foi uma fase de grande experiência para formação
moral e do meu caráter. Cito esses acontecimentos porque
numa empresa de tal porte ficando um departamento com tantas responsabilidades
sob a guarda de um fiel com 17 anos de idade, os apelos para a
prática da desonestidade se nos apresentavam em todo o
momento. Os ajudantes, num total de 21, homens brutos, ignorantes,
analfabetos, já formados, todos subordinados a mim não
tinham uma formação moral das melhores e sim com
fortes tendências a pequenos furtos e se lhes fossem dada
oportunidades desviariam maiores volumes.
Era muito comum chegarem caminhões do interior paulistano
para descarregar altas horas da noite e para adiantar a vida do
caminhoneiro nós recebíamos a mercadoria. Certa
vez foram descarregados vários caminhões da Gessy
Lever para as praças do nordeste e desses caminhões
quatro, logo depois, constatamos que eram para Minas Gerais e
nós não trabalhávamos para esse estado. Essa
mercadoria ficou mais ou menos uns dois meses no depósito
e não houve reclamação por parte do remetente.
Mas nós tínhamos muita intimidade e relacionamento
com todos os motoristas e começamos a sentir falta de quatro
companheiros. Ficamos sabendo que os mesmos tinham sido mandados
embora por justa causa porque tinham desaparecido com a mercadoria.
Entramos em contato com o departamento de pessoal da Gessy Lever
e informamos que a mercadoria estava em nosso depósito.
Depois de devolvida a mercadoria à firma quis saber o que
queríamos pela atitude meritória. Informamos que
se ainda fosse possível reintegrasse na empresa os quatro
motoristas. E assim o fizeram.
No entanto, houve muita relutância para que não devolvêssemos
a mercadoria e os carregadores achavam que o mais correto seríamos
vendermos o produto e dividir com todos.
Embora a empresa produzisse muito capital, pois o transporte de
cargas por via rodoviária tinha a primazia naquele momento,
tendo em vista não existir a concorrência que hoje
existe no mercado. Os responsáveis pela mesma gastavam
a rodo o dinheiro ganho com facilidade, porém com o sacrifício
dos empregados, com farras e gastos de somenos importância.
A vida para os empregados não era nada fácil. O
patrão comprou uma mansão no bairro do Ipiranga
no valor de três milhões, na moeda da época,
para pagar em três anos, ou seja, um milhão por ano.
Os salários eram pagos de forma irregular porque aliado
às prestações da compra do imóvel
a sua esposa, D. Diva, contraiu um câncer que para atenuar
as dores resultantes da insidiosa doença tinha que se submeter
a uma aplicação de medicação caríssima
existente na época, duas vezes por semana, o que dilapidou
as suas finanças a tal ponto que levou a empresa à
falência.
Existia no bairro da Mooca, onde nós estávamos sediados,
um vasto comércio de pensões administradas por italianos,
que vendiam ótima comida para as empresas ali existentes.
Almoçávamos e jantávamos pagando por quinzena.
A situação financeira da empresa chegou a um ponto
tão exasperador que não teve mais jeito e o nosso
crédito foi, literalmente, cortado. Esse foi um período
ótimo para a minha formação e desenvolvimento,
tendo em vista a ginástica que nós tínhamos
que fazer para alimentar vinte e um empregados famintos, sem cerimônia
e educação.
No Largo da Concórdia, situado a uns duzentos metros do
nosso depósito funcionava duas vezes por semana uma grande
feira que comercializava todo tipo de comestíveis. Fizemos
amizade com os barraqueiros, via de regra, italianos e nortistas,
que nos doavam os alimentos necessários para preparação
da nossa alimentação. Esses alimentos ora eram doados,
ora eram conseguidos por intermédio do conhecido “escambo”,
trocando por mercadorias que ganhávamos das empresas que
transportavam suas mercadorias por nosso intermédio.
Nota:
Esse trailer deixa bem claro o que vem mais por ai.
Realmente as dificuldades se multiplicaram de tal modo que se
tornou insustentável. A enfermidade da mulher do patrão
ser agravou cada vez mais causando até o óbito da
mesma.
Aguardem!...
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