A infância

O quadro geral da situação das famílias no recôncavo baiano situadas na faixa de baixa renda era realmente ameaçador. A miséria na capital baiana crescia em proporções geométricas. O golpe de estado de 1937 ocorreu quando se aguardavam as eleições presidenciais marcadas para janeiro de 1938, a serem disputadas por José Américo de Almeida e Armando de Sales Oliveira, ambos apoiadores da revolução de 1930, foi denunciada, pelo governo, a existência de um suposto plano comunista para tomada do poder.
Este plano ficou conhecido como Plano Cohen, e depois se descobriu ter sido forjado por um adepto do integralismo, o capitão Olímpio Mourão Filho, o mesmo que daria início à Revolução de 1964.
Com a comoção popular causada pelo Plano Cohen, com a instabilidade política gerada pela Intentona Comunista, com o receio de novas revoluções comunistas e com os seguidos estados de sítios, foi sem resistência que Getúlio Vargas deu um golpe de estado e instaurou uma ditadura em 10 de novembro de 1937, através de um pronunciamento transmitido por rádio a todo o País.
O último grande obstáculo que Getúlio Vargas enfrentou para dar o golpe de estado foi o bem armado e imprevisível interventor no Rio Grande do Sul, Flores da Cunha, mas este não resistiu ao cerco de Getúlio e se refugiou no Uruguai, antes do golpe do Estado Novo (1937) .
A maioria das famílias viviam à época como animais na selva. Tinham que se defender de tudo e de todos. Os perigos rondavam de todos os lados. A vagabundagem aliada à malandragem típica do baiano da época, fortalecida pelo despreparo e pela falta de capacitação da força de trabalho, levava as pessoas procurarem sobreviver através de roubos e pequenos furtos no dia-a-dia. A fome grassava de forma ameaçadora o que levava se apelar para furtos de pequenos animais, tais como galináceos, caprinos, suínos e em casos de fome mais graves até bovinos também entravam no samba. Tenho, ainda, na memória fatos interessantes sobre a grande criatividade do baiano que a vida exigia para sua sobrevivência e da família. A cidade de Salvador era cortada por linhas de bonde e de trens. As pessoas empurravam o boi para a linha dos bondes ou dos trens para que os mesmos fossem atropelados “acidentalmente” e quando isso, fatalmente acontecia todos se bancateavam com o produto.
Vale à pena citar algumas ações empreendidas pelas crianças quando a sua situação está comprometida e em risco. Via de regra, as casas de moradia eram imensas e com bastante espaço, dotadas de grandes quintais onde se criavam pequenos animais. Colocávamos nos limites do quintal do vizinho até a porta da nossa casa uma trilha formada de milhos separados, uns dos outros, por pequenas distâncias e as galinhas vinham cantando, ciscando e comendo os milhos até que entravam em nossa casa e nós a pegávamos para a nossa alimentação do dia. Mas tudo fazia parte de um processo. No final tínhamos o cuidado de enterrar os detritos em covas bem fundas para que não fosse descoberto o furto pelo proprietário. Isso acontecia com relação à alimentação caseira diária ocasionada pela grande dificuldade existente, pois as famílias eram numerosas. As mulheres tinham em média 15 a 20 filhos com idades em série, acredito até que era por falta de conhecimento sobre prevenção e os homens, seguindo a tradição africana tinham duas ou mais famílias tal a facilidade que se oferecia no momento. As famílias não eram mais numerosas porque a natureza se encarregava de exercer o controle da natalidade por intermédio de abortos naturais, morte prematura de crianças por doenças infecto contagiosas tais como: nefrite, tuberculose, pneumonia, anemia aguda, hepatite, desinteria, morte súbita sem motivo aparentes, muito comuns na época. Porém se escapasse com vida e sobrevivesse aos desígnios da natureza, durante a sua adolescência, fatalmente, contrairia uma ou mais doenças sexualmente transmissíveis, tal a facilidade oferecida pela grande quantidade de mulheres damas (putas) e chibungos (viados) existentes, proliferando na cidade aos montes.
Os responsáveis pelas famílias, via de regra, eram usuários inveterados do uso de álcool e tabaco, de todos os tipos e modalidades existentes, desde os mais refinados, dependendo das posses de cada um até os mais “zurrapas”. Dependendo da situação financeira era usado até o alcool 90º diluído em água. O que não podia acontecer era deixar de beber. Era hábito se reunirem em família nos finais de semana na casa daquele que tinha mais posses e essa ”farra” sempre terminava em desavenças e pancadaria, o que eles tinham uma semana para se esquecerem do acontecido e recomeçarem tudo de novo.
Aos 09 e alguns aos 11 anos já viviam soltos e livres para se alimentarem de forma independente visando a sua sobrevivência. A nossa sorte era que, por incrível que pareça, a cidade de Salvador era realmente uma imensa fazenda ricamente arborizada por uma abundante flora. Nos seus recantos havia uma quantidade muito grande de recursos naturais à nossa disposição. Frutas tais como cajá, sapoti, pitanga, groselha, jenipapo, manga, jaca, carambola, caju, umbu, jambo, oiti, jabuticaba, fruta de conde, goiaba, carambola, fruta-pão, abacate, laranja, banana, mamão, cana, coco, nicuri, dendê, mangaba, cacau, abacate, pinha, tangerina, tudo em grande quantidade e a nossa disposição, porém, com as habituais disputas naturais de territórios que existiam entre os animais, também, existiam entre as crianças nessa faixa de idade.
Infância rica em folguedos, a maioria trazidos da África, bem como pelo europeu que imigravam para a Bahia em busca do ouro e outras facilidades e às vezes fugindo da justiça em débitos com a sociedade. Assim, esses folguedos proporcionavam aos jovens um desenvolvimento físico exuberante pela vida livre e natural que desfrutavam.
Os brinquedos eram elaborados e construídos pelos próprios usuários, usando os meios de fortuna como eram denominados. Isso proporcionava um desenvolvimento natural dos princípios de chefia e liderança.
Essa liberdade natural produzia em série jovens com uma experiência precoce que facilitava a sua sobrevivência nesse meio tão hostil.
Esse pequeno intróito mostra de forma cabal o que era a infância de uma criança sobrevivendo, rusticamente, em uma sociedade desprovida de eletrodomésticos, televisão, videocassete, DVD, Vídeo Game e outros benefícios que hoje são abundantes.
Aguardem que virão fatos cada vez mais interessantes!